
Krux hardware wallet: guia passo a passo
A hardware wallet mais soberana: firmware open source, air-gap por QR code, sem chip proprietário
11 de junho de 2026
A Krux é a hardware wallet mais soberana que existe hoje: firmware 100% open source rodando em hardware genérico, comunicação só por QR code, sem chip secure element proprietário, sem fabricante para confiar. Este é o passo a passo completo para configurarmos e usarmos.
Se você já leu o guia geral de autocustódia, sabe que a regra é tirar Bitcoin da corretora e levar para uma cold wallet. A maioria das pessoas vai parar numa BitBox02, Trezor ou Coldcard, e tudo bem, são ótimas opções. Mas existe um degrau acima em termos de soberania: a Krux.
Por que a Krux importa
Toda hardware wallet tradicional pede que você confie em três coisas: o fabricante, o chip secure element proprietário dentro do aparelho, e o canal de comunicação (USB, Bluetooth, NFC). A Krux remove os três.
- Firmware 100% open source, auditável linha por linha em
github.com/selfcustody/krux. - Hardware genérico da linha M5Stack (Maix Amigo, M5StickV, Yahboom Cube). Não existe "chip mágico", só uma CPU comum e uma câmera.
- Air-gap real por QR code: depois de instalado o firmware, o aparelho nunca mais conecta no PC. Tudo entra e sai pela câmera.
Sob a ótica austríaca, é o equivalente em Bitcoin do dinheiro físico no cofre de casa: eliminamos o último intermediário que ainda restava na cadeia.
Trade-offs antes de começar
A Krux não é para iniciante. Você precisa estar confortável com:
- Verificar assinaturas PGP de um release.
- Rodar um comando de terminal para flashar firmware.
- Operar uma carteira de coordenação (Sparrow ou Specter Desktop) no seu PC.
Em troca, ganhamos custo baixo (US$ 30–90 contra US$ 150–250 de uma Coldcard), zero dependência de fabricante e a possibilidade de auditar todo o código que cuida das suas chaves.
Passo a passo completo
1. Compre o dispositivo
As opções suportadas mais comuns:
- Maix Amigo, tela maior, mais confortável, melhor para uso recorrente.
- M5StickV, compacto e barato, ótimo para backup secundário.
- Yahboom Cube, alternativa intermediária.
Compre direto do fabricante (Sipeed, M5Stack, Yahboom) ou de revendedor oficial reconhecido. Como o aparelho é genérico (não vem pré-configurado para Bitcoin), o risco de adulteração na cadeia de suprimento é menor que numa hardware wallet "Bitcoin", mas ainda assim, evite Mercado Livre e Amazon de terceiro.
2. Baixe e verifique o firmware
Acesse o site oficial: selfcustody.github.io/krux. Baixe a release mais recente para o seu modelo de dispositivo.
Verifique a assinatura PGP do release contra a chave do mantenedor. A própria página da Krux documenta o procedimento. Esse é o ponto mais crítico de todo o processo: você está confiando no código que vai gerenciar suas chaves privadas. Pular essa etapa é como instalar uma carteira de fonte desconhecida.
3. Faça o flash do firmware
Conecte o aparelho ao computador via USB e use o ktool (utilitário oficial da Krux) para gravar o firmware. É um único comando de terminal, documentado no site.
Depois do flash, desconecte o cabo USB e não conecte de novo para uso normal. A partir daqui o dispositivo opera em modo air-gapped, alimentado pela bateria interna. Toda comunicação vai ser por QR code.
4. Gere a seed dentro da Krux
Ligue o aparelho, escolha "New Mnemonic" e selecione a fonte de entropia:
- Dados (D6 ou D20) reais lançados por você, opção paranoica e a que eu recomendo. Você não confia em nenhum gerador de entropia, nem no do fabricante.
- Foto de imagem aleatória, a câmera captura ruído visual.
- Entropia do chip, usa o gerador interno do aparelho.
A Krux gera 12 ou 24 palavras BIP39 e mostra só na tela do aparelho. Nunca digite em PC, nunca tire foto, nunca pronuncie em voz alta perto de microfone.
5. Anote a seed offline
Mesma regra de qualquer cold wallet:
- Anote em papel + metal (Cryptosteel, Seedplate ou aço inox puncionado).
- Confira palavra por palavra com a lista oficial BIP39.
- Guarde pelo menos uma cópia fora de casa (cofre de banco, casa de familiar de confiança absoluta).
A Krux tem um recurso bem útil: o SeedQR. É a sua seed codificada em QR code, que você pode gravar em uma placa de metal e depois ler de volta com a própria câmera. Acelera muito a restauração. Atenção: quem fotografar o QR tem a sua seed, guarde com o mesmo cuidado das 12 palavras.
6. Configure a carteira de coordenação no PC
Instale Sparrow Wallet ou Specter Desktop, ambas open source, gratuitas, multiplataforma.
Na Krux, vá em "Wallet" → "Extended Public Key" e mostre o QR do xpub. No Sparrow, escolha "New Wallet" → "Airgapped Hardware Wallet" → "Krux" → escaneie o QR pela webcam.
O Sparrow agora tem uma carteira watch-only: ele vê o saldo, gera endereços e monta transações, mas não tem chave privada nenhuma. A chave fica só na Krux.
7. Receba bitcoin com segurança
No Sparrow, gere um endereço de recebimento na aba "Receive".
Antes de enviarmos qualquer valor real, confirme o endereço também na Krux: no menu, escolha "Tools" → "Show Address" e escaneie o QR do endereço gerado pelo Sparrow. A Krux deriva o mesmo endereço a partir da seed e mostra na tela. Se bater, o caminho está íntegro, nem o seu PC, nem o Sparrow, nem ninguém no meio adulterou o endereço.
Faça o primeiro envio com valor pequeno vindo da corretora. Confirme que apareceu. Só depois mande o restante.
8. Assine uma transação (o fluxo da Krux)
Esse é o momento que mostra o poder do air-gap por QR:
- No Sparrow, monte a transação (destino, valor, taxa) e clique em "Show QR". Aparece um QR animado contendo a PSBT (Partially Signed Bitcoin Transaction).
- Na Krux, escolha "Sign PSBT" e aponte a câmera para a tela do PC.
- A Krux decodifica a PSBT e mostra os detalhes: endereço de destino, valor, taxa. Confira tudo na tela do aparelho, não no PC.
- Confirme nos botões físicos. A Krux assina a transação internamente e exibe outro QR animado, contendo a transação assinada.
- No Sparrow, clique em "Scan QR" e aponte a webcam para a tela da Krux. O Sparrow lê, monta a transação final e faz o broadcast para a rede Bitcoin.
Em nenhum momento a chave privada saiu do aparelho. Nenhum cabo, nenhum Bluetooth, nenhum driver. Só luz entre uma tela e uma câmera.
9. Teste o backup antes de confiar valor relevante
Antes de mandarmos a poupança inteira:
- Faça um envio pequeno para a carteira da Krux.
- Faça factory reset (segure o botão de reset durante o boot).
- Restaure a partir da seed escrita (digitando ou lendo o SeedQR).
- Abra o Sparrow e confirme que o xpub é o mesmo que ele já conhecia e que o saldo apareceu.
Se restaurou corretamente, está tudo certo. Só agora transfira valor relevante.
Multisig: o próximo nível
A Krux brilha em setups multisig (2-de-3, 3-de-5). Você pode combinar uma Krux com uma Coldcard e uma BitBox02, em locais geográficos diferentes, e exigir 2 assinaturas para mover fundos. Se um aparelho for roubado ou destruído, os bitcoins continuam seguros e recuperáveis.
Sparrow e Specter Desktop suportam multisig nativo com Krux. Para valores altos, é o padrão recomendado pela comunidade Bitcoin paranoica.
Quando a Krux não é para você
Se você está começando agora, comece numa BitBox02 BTC-only ou numa Trezor. Curva de aprendizado menor, suporte oficial, ergonomia melhor. A Krux é o degrau de cima, vale a pena quando você já entende o modelo de ameaças e quer eliminar até o último ponto de confiança em terceiros.
Soberania é um processo, não um produto. A Krux é o que tem de mais próximo de Bitcoin puro no seu bolso.
Usando a Krux com a BlueWallet no celular
Sparrow e Specter rodam no PC. Mas e quando você está na rua e quer conferir saldo ou montar uma transação para assinar depois? A combinação Krux + BlueWallet resolve isso sem comprometermos o air-gap.
A ideia é simples: a BlueWallet entra como carteira watch-only no celular. Ela vê saldo, gera endereços e monta PSBTs, mas nunca toca a chave privada, que continua só dentro da Krux.
Configuração
- Na Krux, vá em "Wallet" → "Extended Public Key" e mostre o QR do xpub (o mesmo formato que você usaria no Sparrow).
- Na BlueWallet, toque em "Adicionar carteira" → "Importar" e use a opção de escanear QR code.
- Aponte a câmera do celular para a tela da Krux. A BlueWallet reconhece como carteira watch-only e mostra o saldo.
Pronto. O celular agora consulta a blockchain pela sua chave pública, mas é incapaz de gastar qualquer satoshi.
Recebendo
Gere o endereço na BlueWallet normalmente. Para valores relevantes, confira o endereço também na Krux (menu "Tools" → "Show Address", escaneando o QR gerado na BlueWallet). Se bater, o caminho está íntegro.
Assinando uma transação
O fluxo é o mesmo do Sparrow, só que entre o celular e a Krux:
- Na BlueWallet, monte a transação (destino, valor, taxa) e escolha "Exportar PSBT". Ela mostra um QR animado.
- Na Krux, escolha "Sign PSBT" e aponte a câmera para a tela do celular.
- Confira destino, valor e taxa na tela da Krux (nunca confie só no celular).
- Confirme. A Krux assina e mostra outro QR animado.
- Na BlueWallet, toque em "Importar PSBT" e escaneie o QR da Krux. Ela monta a transação final e faz o broadcast.
A chave privada nunca saiu da Krux. Nenhum cabo, nenhum Bluetooth, só luz entre tela e câmera, agora completamente sem PC.
Por que essa combinação é poderosa
- Soberania da Krux (firmware open source, hardware genérico, air-gap real) + mobilidade da BlueWallet (open source, sem KYC, sem servidor central).
- Zero dependência de PC para uso diário: você confere saldo e monta transações em qualquer lugar.
- Se perder ou tiver o celular roubado, o atacante não consegue mover nada, só vê o saldo. Você instala a BlueWallet em outro aparelho, importa o xpub de novo e segue a vida.
É a stack mais soberana possível para Bitcoin no dia a dia. Cofre na Krux, interface na BlueWallet, broadcast pela rede. Sem terceiros em nenhum ponto da cadeia.
Glossário
Termos técnicos do post explicados em uma ou duas frases, para quem está chegando agora.
- Firmware
- Software que roda dentro de um aparelho (hardware wallet, roteador, impressora). É o "sistema operacional" do dispositivo.
- Open source
- Software com código-fonte público, que qualquer pessoa pode ler, auditar e compilar.
- Chip secure element
- Microchip dedicado a guardar segredos criptográficos. Em hardware wallets tradicionais, esse chip é proprietário, você confia no fabricante.
- Cold wallet
- Carteira cuja chave privada nunca toca a internet.
- Air-gap
- Isolamento total de uma máquina de qualquer rede. Comunicação só por QR code ou cartão SD.
- Assinatura PGP
- Selo criptográfico que prova que um arquivo foi mesmo publicado por quem assina. Verificar a assinatura garante que o firmware não foi adulterado no caminho.
- Flashar
- Gravar um firmware novo na memória do dispositivo, substituindo o que estava lá.
- Carteira de coordenação
- Software (Sparrow, Specter) que roda no PC e cuida da parte "online": consulta saldo, monta transações e fala com a rede. A chave privada não fica nele, fica na hardware wallet.
- Chaves privadas
- Os números secretos que assinam transações e provam que você é dono dos bitcoins.
- Terminal
- Janela de linha de comando do sistema operacional, onde você digita comandos em vez de clicar em botões.
- Entropia
- Aleatoriedade matemática usada para gerar uma seed segura. Quanto mais imprevisível a fonte (jogar dados, por exemplo), mais difícil é adivinhar a seed.
- BIP39
- Padrão Bitcoin que define a lista oficial de 2048 palavras usada para gerar seeds. Garante compatibilidade entre carteiras.
- SeedQR
- Padrão que codifica a seed BIP39 em um QR code. Permite gravar a seed em metal e restaurar lendo-a pela câmera, em vez de digitar palavra por palavra.
- xpub
- Extended Public Key, chave pública estendida. Permite a uma carteira watch-only enxergar saldo e gerar endereços sem ter acesso à chave privada.
- Watch-only
- Carteira que enxerga o saldo e gera endereços, mas não tem como gastar, porque não tem a chave privada.
- PSBT
- Partially Signed Bitcoin Transaction, formato padrão para transportar uma transação ainda não assinada entre dispositivos.
- Broadcast
- Enviar a transação assinada para a rede Bitcoin, onde mineradores vão incluí-la em um bloco.
- Driver
- Pequeno software no PC que serve para conversar com um dispositivo externo. Um aparelho air-gapped não usa nenhum, exatamente por isso, o ataque por driver malicioso fica impossível.
- Factory reset
- Apagar o aparelho de volta ao estado de fábrica, removendo a carteira atual. Necessário para validar que a sua seed escrita realmente restaura.
- Multisig
- Esquema em que vários dispositivos precisam assinar para mover fundos. Uma carteira 2-de-3 exige 2 das 3 assinaturas.
- Blockchain
- Livro-razão público em que toda transação de Bitcoin fica registrada para sempre, copiado por milhares de nós ao redor do mundo.
- Satoshi
- Menor unidade do Bitcoin. 1 BTC = 100 milhões de satoshis.
- KYC
- Know Your Customer, cadastro com documentos exigido por corretoras reguladas.
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